Missa na Capela da Casa Provincial, em Curitiba, celebrou as línguas de sinais e destacou iniciativas de acolhimento e participação da comunidade surda na missão da Congregação
A comunicação ganhou um novo significado na Capela da Casa Provincial das Irmãs Beneditinas da Divina Providência, em Curitiba. Na última quarta-feira (30/09), uma celebração presidida pelo Padre Wilson Czaia, sacerdote surdo, reuniu Irmãs e colaboradores em um momento marcado pela fé, pela inclusão e pela valorização da Língua Brasileira de Sinais (Libras).
A missa foi realizada em sintonia com o Dia Internacional das Línguas de Sinais, o Dia Nacional dos Surdos e o Dia Internacional do Tradutor e Intérprete. O encontro também expressou, de forma concreta, um movimento que vem sendo construído no cotidiano da Congregação, com o aprendizado de Libras, a presença de colaboradores surdos e a busca por uma comunicação cada vez mais acessível.
A Associação Beneditina da Providência (ABENP), Organização da Sociedade Civil (OSC) mantenedora das obras das Irmãs Beneditinas da Divina Providência no Brasil, tem vivenciado esse processo de maneira especial. A instituição conta atualmente com colaboradores surdos e vem ampliando iniciativas de acessibilidade e inclusão no ambiente de trabalho e nas atividades realizadas pela comunidade.
Um dos momentos simbólicos desse caminho foi a criação do sinal da ABENP em Libras. O sinal é formado pela configuração da letra “A” com uma das mãos, seguida do movimento que representa uma ave, feito com as duas mãos, em referência à identidade da instituição religiosa.
O novo sinal passa a representar a ABENP também na língua de sinais, traduzindo em um gesto simples a identidade e o pertencimento de uma entidade que, como parte da missão das Irmãs Beneditinas da Divina Providência, busca ampliar os espaços de participação e acolhimento.
Aprender também é acolher
A Irmã Elizabeth Cuenca, BDP, está entre as pessoas que vêm se dedicando ao aprendizado de Libras na ABENP. O contato mais próximo com os colaboradores surdos e a experiência da celebração realizada com o Padre Wilson têm ampliado esse processo.
“Aprender Libras tem sido, para mim, uma experiência de encontro. Cada sinal que aprendo representa uma possibilidade a mais de me comunicar, de compreender e de estar próxima das pessoas surdas. Não se trata apenas de aprender uma língua, mas de derrubar uma barreira e dizer, na prática, que queremos caminhar juntos. A presença da Adriana, do Vitor e de toda a comunidade surda nos ensina muito e também nos desafia a construir uma Igreja e uma instituição cada vez mais acolhedoras”, comenta Irmã Elizabeth.
Para Adriana Rocha Borba, colaboradora surda da ABENP, o acolhimento que encontrou desde sua chegada à instituição tem um significado especial. Depois de quatro anos afastada do mercado de trabalho, ela encontrou na organização uma oportunidade de retornar à vida profissional e passou a vivenciar, no cotidiano, diferentes iniciativas de inclusão.
“Para mim, inclusão não é apenas estar dentro de um lugar. É poder participar, compreender o que está acontecendo, conversar, aprender e ser ouvida. Na ABENP, tenho sentido isso no dia a dia. Quando as pessoas demonstram interesse em aprender Libras, quando existe um intérprete nos momentos importantes ou quando alguém simplesmente tenta se comunicar comigo, esses gestos fazem uma diferença enorme. É um acolhimento humanizado, que me faz sentir parte da instituição.”
Uma missão que também se comunica pelas mãos
A trajetória de Rosilene Cristina Raganhan com a comunidade surda começou ainda na família, por meio da convivência com o irmão surdo. Anos mais tarde, ela passou a estudar Libras e transformou essa experiência em uma missão de inclusão, contribuindo para a formação de intérpretes e para a ampliação da participação de pessoas surdas na vida da Igreja.
Segundo ela, a comunicação em Libras é também uma forma de aproximar pessoas e criar novas possibilidades de participação. “Minha trajetória com a Libras nasceu de uma experiência familiar e, ao longo do tempo, se transformou em uma missão de inclusão, acolhimento e serviço. Hoje, vejo a Libras como uma forma concreta de aproximar pessoas, derrubar barreiras e garantir que a comunidade surda possa participar plenamente da vida social e, especialmente, da vida da Igreja.”
A experiência também tem marcado a trajetória de Vitor Gonçalves, auxiliar administrativo da ABENP. Ao ingressar na instituição, ele participou de uma entrevista de emprego com intérprete de Libras, experiência que, segundo ele, fez diferença desde o primeiro contato.
“Em outras entrevistas, a comunicação acontecia apenas por legendas ou de forma limitada. Na ABENP, foi diferente desde o começo. Ter um intérprete fez com que eu me sentisse acolhido e respeitado. Hoje, no ambiente de trabalho, nunca me sinto sozinho. As pessoas têm interesse em aprender Libras, procuram se comunicar comigo e fazem questão de me incluir nas conversas e nos momentos importantes.”
Foi Vitor quem inicialmente criou o sinal utilizado para representar a ABENP em Libras, inspirado na identidade da instituição. O gesto passou a ser utilizado no cotidiano e ganhou ainda mais significado durante a celebração desta semana. A presença do Padre Wilson também reforça esse caminho. Surdo e sacerdote, ele tem contribuído para aproximar a comunidade surda da vida litúrgica e, por meio do curso de Libras, também participa do processo de formação de pessoas interessadas em aprender a língua.
A experiência vivida pelas Irmãs Beneditinas da Divina Providência e pela ABENP mostra que acessibilidade pode começar com um gesto simples: aprender a dizer uma palavra com as mãos, procurar compreender o outro e criar condições para que todos possam participar. Ao celebrar essas datas, a Congregação reafirma uma mensagem que se traduz tanto em palavras quanto em sinais, eternizada no cartão celebrativo entregue aos colaboradores: “Sua presença enriquece nossa missão. Obrigada pelos dons que Deus confiou a você e que compartilha conosco todos os dias.”
Na missão das Irmãs Beneditinas da Divina Providência, essa mensagem ganha agora também um sinal próprio. Uma letra, duas mãos e uma ave que passam a representar, em Libras, uma mesma identidade: a de uma Igreja e de uma comunidade que desejam acolher, compreender e caminhar com todos.
Província Mãe da Divina Providência – Irmãs Beneditinas da Divina Providência